Do fundo da caixa preta: The Best of Times

MURPHY'S LAW "The Best of Times" Relativity Records
Você percebe que compra discos há vinte anos quando as prateleiras do seu quarto começam a desmontar com o peso de tantos CDs e LPs acumulados ao longo do tempo. Outro detalhe que te faz perceber essa passagem do tempo é notar que alguns desses discos não são ouvidos há anos e anos. É o caso de "The Best of Times", álbum da banda novaiorquina Murphy's Law, que adquiri em fevereiro de 1993. Hoje, por algum motivo inconsciente, resgatei o CD do limbo e me pus a ouvir o suíngue de branco que eles tentaram imprimir naquela época.
Até então, o Murphy's Law era uma típica banda de hardcore de NYC. Rápida e barulhenta. Mas tudo mudou em "The Best of Times", em boa parte por causa do apadrinhamento de John "Nordwood" Fisher e Philip "Fish" Fisher, do combo de funk-rock-soul Fishbone. O resultado é uma versão mais tosca do que os Chilli Peppers já tinham feito melhor, especialmente no excelente "Mother's Milk", mas, mesmo assim, não deixa de ser engraçado ouvir a influência negra no som do quarteto punk. Várias canções têm guitarras e baixo com wah-wah, e algumas delas ganharam arranjos com o naipe de metais do próprio Fishbone (incluindo o virtuoso Angelo Moore). Essa fusão de rock ou metal com funk foi uma febre das mais passageiras no início dos 90's. A imprensa musical criou até o equivocado rótulo funk metal para nomear bandas como Primus e Faith No More, sendo que essas, na verdade, nada tinham de funk. Mas, enfim, bastava um slap bass para taxarem um conjunto de funk metal e o Murphy's Law caiu de cabeça nessa onda, embora as raízes deles fossem outras.
A produção de Nordwood e Fish em "The Best of Times" teve algum êxito na parte artística (tentaram botar óleo na cintura dura dos punks e, até certo ponto, conseguiram), mas a gravação não é lá muito encorpada. Por outro lado, as melhores músicas têm a mão dos irmãos fishbone: "Tight", "Car Song" e a regravação divertida "Santa's Got a Brand New Bag" vêm com naipe de metais arranjados por Fernando Pullam e Angelo Moore que botariam muita pistinha de dança pra ferver. Outra parte do repertório guarda porralouquice e irreverência punks ("Beer Bath", "Burnt Toast" e a versão escrachada de "Ebony & Ivory", esta última, uma possível brincandeira com a parceria entre Murphy's Law e Fishbone na concepção do álbum).
Treze anós após seu lançamento, onze depois da minha aquisição e, sabe-se lá quantos desde minha última audição, "The Best of Times" soa um tanto datado, mas, ainda assim, divertido. Na pior das hipóteses, nos faz lembrar de uma época em que misturar gêneros aparentemente incompatíveis parecia uma sacada de mestre pra curar a ressaca dos anos 80. Funcionou por pouco tempo, mas acabou abrindo as portas para as fusões que, uma década depois, resultariam no nü-metal e nos Linkin Parks da vida.
E o Murphy's Law voltou a ser punk.
Escrito por Mr Eddy às 21h34
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